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Quem é Miguel Díaz-Canel, o ‘discípulo predileto’ de Raúl Castro, que assume o poder em Cuba

18/04/2018 às 18:23:52

Para alguns, ele é um reformista à espera da oportunidade de introduzir mudanças necessárias na Revolução Cubana. Para outros, seu papel se limita ao de um burocrata escolhido a dedo para manter o “retrógrado” sistema político da ilha.

Mas quem realmente é Miguel Díaz-Canel Bermúdez, o sucessor de Raúl Castro na presidência de Cuba?

“Essa é uma pergunta cuja resposta vai demorar para ser conhecida”, diz o embaixador Carlo Alzugaray em entrevista à BBC Mundo, serviço em espanhol da BBC.

A Assembleia Nacional está reunida nesta quarta-feira (18) para escolher o novo presidente do país. No início da tarde, contudo, antes do fim do encontro, parlamentares confirmaram à BBC que Díaz-Canel era o único candidato à sucessão.

O novo presidente, que completa 58 anos nesta semana, assume a responsabilidade de guiar o país em circunstâncias inéditas. Pela primeira vez em seis décadas, Cuba não terá um Castro no comando.

A geração que protagonizou a insurreição contra o ditador Fulgêncio Batista, na década de 1950, começou a se retirar do poder, dando espaço para uma pessoa mais jovem.

Os círculos políticos e intelectuais do país estão divididos sobre como será daqui para frente. Há quem queira mais reformas econômicas e maior abertura ao mercado externo, processo iniciado de forma gradual por Raúl Castro. Outros advogam pela manutenção do controle estatal na economia e na opinião pública para assegurar a estabilidade política.

Com qual dessas visões Díaz-Canel está alinhado ainda é uma incógnita.

Ele é um homem corpulento e grisalho. Seus olhos azuis – traço que aponta para suas origens europeias – é uma das poucas certezas que os cubanos têm sobre ele.

Raízes em Villa Clara
Descendente de imigrantes das Astúrias, na Espanha, ele nasceu em Placetas, na província cubana de Villa Clara. Ele é casado com uma professora universitária e tem dois filhos de um matrimônio anterior.

Foi em Villa Clara que o político conseguiu o crédito que acabou por levá-lo ao maior cargo da burocracia estatal cubana.

Depois de completar o serviço militar obrigatório, Díaz-Canel se formou em engenharia na Universidade de Las Villas, onde depois virou professor.

Em 1987, ele se converteu em dirigente da União de Jovens Comunistas e deu seu primeiro passo na carreira política.

Foi então que o Departamento de Organização e Quadros do Partido Comunista se interessou pelo jovem Díaz-Canel, um jovem que amava os Beatles e acreditava piamente na causa socialista.

Companheiros da juventude recordam do apreço pelo socialismo demonstrado por Díaz-Canel nas caminhadas que ele fazia pelo campo durante seu trabalho de doutrinação.

O novo presidente de Cuba era um leal seguidor da ortodoxia socialista, mas não demonstrava ser autoritário, segundo seus amigos.

Logo no início ele foi enviado à Nicarágua em uma missão que reunia militares, médicos e outros profissionais cubanos. Eles ajudaram o grupo que promovia a revolução sandinista, que se estendeu entre 1978 e 1990.

“Na Nicarágua, Díaz-Canel organizou comitês de base com jovens comunistas. Ele fez um trabalho político-ideológico que buscava reforçar as posições do governo cubano e do sandinismo”, lembra Arturo López Levy, cientista político da Universidade de Texas.

De volta a Cuba, em 1993, Díaz-Canel virou secretário do Partido Comunista em Villa Clara.

O político era visto como “comprometido” e “líder tolerante” quando era o responsável do partido em sua cidade natal, uma época que ficou conhecido como “período especial”, quando a economia cubana quase entrou em colapso após o desmantelamento da União Soviética, âncora do bloco socialista.

Harold Cárdenas Lema, autor do blog socialista La Joven Cuba e conterrâneo do futuro presidente, relembra em entrevista à BBC Mundo que “as políticas sociais progressistas” de Díaz-Canel o diferenciaram de outros nomes do partido.

Outros conterrâneos do político lembram da perseguição de Díaz-Canel ao mercado paralelo – muitos cubanos procuram esse comércio em busca de produtos que não são vendidos nos mercados legais.

Um dos motivos que amigos usam para apontar Díaz-Canel como um “homem moderno” foi sua defesa do clube “El Mejunje”, um local frequentado por membros da comunidade LGBT. Setores intransigentes da burocracia cubana ficavam escandalizados com as atividades do local e com os espetáculos promovidos por travestis.

O fundador do clube, o artista Ramón Silverio, lembra que Díaz-Canel costumava levar seus dois filhos para as atividades infantis do local.

Para López Levy, contemporâneo do socialista na militância juvenil, Díaz-Canel é um político “distinto”.

“Ele exerceu uma liderança em Santa Clara bastante rara para a época. Andava de bicicleta e usava bermudas nas ruas”, ele conta à BBC Mundo.

“Em uma época de escassez, ele construiu uma imagem de modéstia, de proximidade com as pessoas. Foi uma jogada política muito inteligente”, disse.

Sua capacidade de organização também é elogiada.

“Ele é um engenheiro que pensa em termos de eficiência, questionando-se qual é o sistema que lhe trará mais resultados”, diz o cientista político López Levy.

Metódico, Díaz-Canel cresceu na carreira política como um “funcionário exemplar”.

Fidel Castro, impressionado
López Levy conta que Díaz-Canel impressionou Fidel Castro quando o histórico dirigente decidiu visitar a província de Villa Clara. Na ocasião, o jovem político conseguiu mobilizar uma grande quantidade de pessoas em poucas horas.

Em 2003, ao mesmo tempo em que ele aceitou dirigir a província de Holguín, Raúl Castro promoveu sua candidatura ao comitê central do Partido Comunista. Essa relação de “mestre e discípulo” entre o primeiro-ministro e seu sucessor, como descreve Carlo Alzugaray, é mantida até hoje.

Díaz-Canel estava no núcleo de poder estatal em 2009, um ano depois de Raúl assumir como primeiro-ministro. Acabou se tornando seu ministro da Educação.

Nessa cadeira, ele organizou uma série de reuniões com quadros estudantis para conhecer a situação da educação cubana.

Luiz Carlos Bautista estava entre as dezenas de estudantes que se reuniram com o então ministro da Educação na Universidade de Havana. “Me lembro que ele era um homem sério, mas não frio. Ele parecia atento ao que ocorria em universidades estrangeiras”, disse à BBC Mundo.

Segundo Bautista, o então ministro demonstrou especial interesse pelas condições da estrutura da universidade e pelo trabalho político-ideológico.

Harold Cárdenas também participou dos encontros e notou algo que acredita que possa ser um problema.

“Díaz-Canel pertence à geração dos meus pais, que cresceu com o embargo dos Estados Unidos e que tem uma atitude negativa em relação a esse país”, diz.

Depois do ministério, o futuro líder cubano foi nomeado para a cadeira de vice-presidente dos conselhos de Estado e de Ministros. Esse cargo o elevou à categoria de possível sucessor de Raúl Castro.

Raúl o elogiou por “não ser um novato” e por sua “firmeza ideológica”.

“Distanciar-se de Raúl Castro poderia tê-lo colocado em risco”, explica López Levy. Desde então, Díaz-Canel tem evitado impor uma agenda própria e preferido se manter quase em silêncio, perfil que impede prever como será sua atuação como primeiro-ministro de Cuba.

Aparentemente, ele aprendeu a lição deixada por Carlos Lage, Roberto Robaina e Felipe Pérez-Roque, dirigente defenestrados inesperadamente pelos irmãos Castro por tomarem atitudes consideradas “desleais”.

A cautela ajudou Díaz-Canel a sobreviver na cúpula cubana, segundo pessoas que conviveram com ele. Um jornalista veterano de Cuba, que prefere não ter seu nome revelado, afirma que o político “fez a mesma coisa que todos os outros, obedecer”.

Recentemente, declarações do socialista têm se afastado de seu antigo perfil de “abertura”. Ele tem reafirmado preceitos comunistas e prometido persistir “na marcha triunfante da Revolução”.

“Nos últimos tempos ele tem mostrado uma dureza ideológica preocupante”, diz Alzugaray.

Para Antonio Rodiles, ativista anticastrista, Díaz-Canel “é uma pessoa apagada que repete como um robô o que tem sido dito em Cuba nos últimos 60 anos”.

Segundo ele, com a chegada de Donald Trump à Casa Branca e a queda da esquerda em vários países da América Latina, o governo cubano se sente “encurralado” e propõe apenas “resistir”.

Rafel Rojas, do Centro de Pesquisa e Docência Econômica da Cidade do México, afirma que a ascensão de Díaz-Canel é legitimada por sua promessa de continuísmo. Por outro lado, ele acredita que, ao longo dos anos, ele pode mostrar características diferentes dos irmãos Castro.

Em um vídeo vazado há alguns meses, o futuro presidente acusa alguns meios de comunicação cubanos de promover “estereótipos de guerra cultural” – as afirmações desencorajaram pessoas que acreditavam que poderia haver mudanças na ilha.

Alguns observadores acreditam que o vazamento pode demonstrar traços de desprestígio do político entre seus próprios companheiros.

Díaz-Canel costuma participar de reuniões usando um tablet e é visto em público com sua mulher, algo incomum entre os dirigentes cubanos, que rechaçam novas tecnologias e exposição pública de suas vidas privadas.

López Levy acredita que, na realidade, ele é partidário de aplicar reformas e que as pessoas o subestimam quando dizem que ele está nas mãos de setores mais reacionários de Cuba.

Para muitos em Cuba e entre a numerosa comunidade cubana no exterior, essas mudanças são necessárias, mas insuficientes.

Díaz-Canel tende a pilotar a nave cubana sob pressão de setores divergentes.

A capacidade de trabalhar em equipe, muito alardeada em seu favor, deverá ser um dos recursos que terá de explorar a partir de agora.

Porque, como diz Alzugaray, “de Fidel foi perdoado tudo, de Raúl quase tudo, mas de Díaz não será tão perdoado”.

G1

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