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Rede de Jovens São Paulo Positivo questiona maneira como autoridades de saúde enxergam as pessoas com HIV

13/01/2018 às 10:08:49

A Agência de Notícias da Aids publicou, nessa quinta-feira (11), uma reportagem sobre um “kit brinde” que um doador de sangue recebeu da Fundação Pró-Sangue, no posto do Hospital das Clínicas. Tratava-se de um jogo de tabuleiro e um bilhete com a seguinte mensagem: “Sorologia positiva – Você perdeu!!! O jogo acabou para você”.

O jogo funciona como o famoso “Jogo da Vida”, em que o jogador avança pelo tabuleiro com o objetivo de chegar ao final primeiro. No caso desse distribuído aos doares de sangue em São Paulo, quando um jogador cai em uma casa específica do tabuleiro, precisa sortear uma das duas cartas “surpresas”. Assim, quem tirar a que se refere à “sorologia positiva”, perde o jogo.

Em repúdio, a Rede de Jovens São Paulo Positivo publicou nota onde afirma que o jogo reproduz o estigma e a discriminação relacionados ao HIV/aids. Além disso, a Rede questionou a maneira como os serviços e autoridades de saúde enxergam as pessoas infectadas pelo vírus e pediu que sociedade civil volte a discutir a discriminação em torno do HIV “com a amplitude necessária, para que nós tenhamos a ‘dignidade da pessoa humana’, um dos pilares de nossa Constituição, devidamente respeitada.”

Confira a nota na íntegra:

A Rede de Jovens São Paulo Positivo, rede estadual de adolescentes e jovens vivendo com HIV no Estado de São Paulo, vem a público declarar repúdio a um jogo desenvolvido pela Fundação Pró-Sangue que reproduz o estigma e a discriminação envolto ao HIV/Aids. Trata-se de um jogo didático sobre doação de sangue em que, em determinado “caminho” do jogo lúdico, um envelope continha a mensagem: “sorologia positiva – Você perdeu. O jogo acabou pra você”.

O jogo foi parar nas redes sociais, pelo jornalista Felipe Held, e posteriormente na imprensa, gerando revolta. Nós repudiamos não somente o ato, como nos preocupamos com o aumento do estigma e discriminação do HIV-Aids, com a aidsfobia, que está visível no último período. Após enfrentarmos um ano de perda de direitos, ameaça de criminalização da transmissão intencional (sem especificação clara do que seja essa intencionalidade) do HIV, fim dos blocos de investimentos no financiamento do SUS (o que afeta a resposta brasileira à epidemia de HIV/Aids)… Começamos o ano com uma instituição conceituada, distribuindo um jogo que nos trata como “cartas fora do baralho”. Ignora todo o avanço científico conquistado na matéria, mas também ignora o quanto de tabu e preconceito ainda rondam a vivência com HIV. O quanto ainda vários de nós precisam literalmente esconder suas sorologias para não serem tirados do jogo pela sociedade.

Mas queremos questionar mais: queremos questionar o modus operandi de como os serviços e as próprias autoridades sanitárias e de saúde nos enxergam (sem exceção, a começar pelo Ministério da Saúde). Enxergam-nos como vetores de doença ou como humanos, entes biopsicossociais? Saúde para vocês é só a ausência de doença ou perpassa por todos os aspectos da vida humana, as realidades sociais, as subjetividades? Como vocês lidam com o racismo institucional, a LGBTfobia, aidsfobia, a violência introjetada nos equipamentos?

E a Política Nacional de Humanização (Humaniza SUS de 2003), está engavetada em algum lugar, nessa época de congelamento de gastos públicos por vinte anos e desvalorização/desmantelamento dos serviços públicos? A importância da educação permanente, da formação humanística (e não só técnica) dos profissionais, ainda é prioridade para as instituições (aliás, algum dia já foi)?

Precisamos repensar o “modus operandi” que faz rodar as práticas quotidianas dos serviços, e os nossos próprios comportamentos que reproduzem opressões. Nós, da Rede de Jovens SP+, conclamamos junto à sociedade civil que a discriminação e o estigma do HIV/Aids volte a ser discutido, com a amplitude necessária, para que nós tenhamos a “dignidade da pessoa humana”, um dos pilares de nossa Constituição, devidamente respeitada.

 

Agência Aids

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